Será que psicoterapia realmente funciona?

A psicoterapia está funcionando ou você está ficando cada vez melhor em explicar seus problemas? 

Outro dia, almoçando com um amigo num botequim “copo sujo”, acompanhados de um litrão, começamos a falar sobre uma amiga em comum. Não me lembro qual era o assunto inicial. O importante aqui é o desdobramento, que culminou numa reflexão sobre psicoterapia clínica, quando meu amigo me perguntou: 

Você acredita que esse negócio de psicólogo funciona mesmo?

Contextualizando o objeto da fofoca: a amiga em comum, que vou chamar aqui de Lídia, porque fica estranho ficar falando “amiga em comum”, foi lembrada pelo meu amigo por causa da famigerada síndrome do pânico que ela desenvolveu. 

Até aí, nada muito novo. Mas a psicoterapia entrou na conversa porque Lídia sempre gostou muito de sair falando aos quatro ventos que faz psicoterapia desde a adolescência e que é filha de santo de X e Y. Se orgulha muito da própria religião e espiritualidade e não perde uma oportunidade de pregar as good vibes com seus banhos e incensos. (ah eu particularmente amo!) Às vezes (na maioria das vezes) dá uma cansada na galera? Sim, porque a gente tende a compartilhar o que faz sentido pra gente, querendo que nossos queridos também entrem no bonde! Mas, enfim, ela é muito falante, palestrinha espiritual e pregadora da palavra freudiana e o pico da conversa de bar é que ela desenvolveu síndrome do pânico. 

Na verdade, boa parte do nosso ciclo de amizades nunca achou que Lídia batesse muito bem, porque sempre percebemos nela a dependência emocional gritante nos relacionamentos amorosos, associados ao mesmo tempo a comportamentos bastante egocêntricas no que tange o mundo aqui fora. (mas isso é a maioria de nós tambémdá umas escorregadas) Resumindo numa frase: ela não é exatamente do tipo que percebe o outro que não seja seu par romântico. 

Então, do nosso ponto de vista (e do litrão na mesa) observamos que, mesmo valorizando tanto a própria fé e fazendo acompanhamento psicológico há anos, Lídia continua carregando padrões que parecem permanecer intactos. Ela sempre roda e para no mesmo lugar. (ai que dor me deu aqui)

Aí veio a pergunta: 

Como alguém pode fazer psicoterapia durante anos e continuar repetindo os mesmos padrões?

Não é nem pela síndrome do pânico, entenda bem. Esse foi apenas o assunto que deu vida à reflexão que vamos desenvolver daqui em diante. Talvez o problema não seja que a psicoterapia não funciona. 

Talvez seja que fazer psicoterapia e se transformar não sejam dois processos que obrigatoriamente se complementam. Não são a mesma coisa.

Já parou para pensar sobre isso? 

Eu, particularmente, sou entusiasta do estudo do desenvolvimento humano e estou sempre pesquisando, me usando como ratinho de laboratório (tadinhos). E que venham terapias e terapias. Qualquer ferramenta que auxilie na busca pelo autoconhecimento eu louvo de pé. Faço o melhor que posso com minhas observações, meu ceticismo (sim! ) e minha fé inabalável no Universo. 

(toda controversa, ela!)

Fonte: (Acervo pessoal/Nós da Terra)

Fazer psicoterapia não é a mesma coisa que fazer um processo 

A psicoterapia pode proporcionar benefícios como: 

  • acolhimento; 
  • compreensão; 
  • elaboração; 
  • nomeação de sentimentos; 
  • identificação de padrões; 
  • construção de recursos; 
  • mudança de comportamento; 
  • transformação da relação consigo e com os outros. 

Mas essas coisas não são automaticamente equivalentes. Uma não puxa necessariamente a outra. Não é porque eu bebo um litrão que eu sou alcoolista ou sommelier de cervejas. Entende? Uma pessoa pode sair de uma sessão pensando: 

“Agora eu entendo por que faço isso.” 

E isso é importantíssimo, inclusive do ponto de vista geracional. Entender de onde vêm determinados padrões pode interromper dores que atravessam famílias inteiras. Mas existe uma pergunta seguinte: 

“E agora que eu entendo, o que faço diferente?” 

A armadilha da descoberta 

Ouvi um relato num shorts do YouTube outro dia. Uma moça estava falando sobre autoconhecimento e contando a importância da psicoterapia para ela. Dizia que tinha muito preconceito (quem nunca?) mas que a terapia havia mudado completamente sua vida. 

Veja bem: ela dizia que, com a psicóloga, descobriu a origem dos problemas que tinha ou teve, como decisões erradas, padrões de relacionamentos românticos, a relação com os pais, com amigos etc. Ela frisava que, em todas as sessões, chorava copiosamente, de soluçar. Inclusive, enquanto relatava tudo isso, estava aos prantos. Tive a curiosidade de clicar para ver mais uma parte do vídeo porque a choradeira me intrigou. 

Depois de mais choros, o relato termina com a sensação de que houve uma grande transformação. Mas, pela fala que se seguiu, coisas em torno de como se sentia aliviada, calma desde então, a meu ver talvez tenha acontecido outra coisa: 

Ela encontrou uma explicação.

E explicação não é necessariamente transformação. Muitas pessoas se sentem muito confortáveis ao descobrir que seus fracassos têm uma origem.  

“Não é possível que eu tenha sido tão idiota.” 

Inclusive, eu mesma fiquei nessa por muito tempo. Quando finalmente encontramos um “motivo”, um culpado por sermos quem somos e por agirmos como agimos, sentimos que chegamos a algum lugar. Agora é só continuar falando sobre isso com a psicóloga e com todo mundo que eu encontrar, que estarei redimida. Só que descobrir: “Eu sou assim porque aconteceu X comigo”, não significa automaticamente conseguir superar e mudar o que vem daqui para frente. 

A origem da ferida explica o comportamento. Ela não precisa virar autorização para perpetuá-lo. 

A identidade de vítima pode ser muito confortável 

Reconhecer que fomos feridos, que determinados comportamentos podem ser consequência do comportamento de outras pessoas, é necessário. Permanecer psicologicamente organizado em torno dessa ferida pode ser outra coisa. Porque existe um ganho secundário possível. Quando consigo explicar todos os meus comportamentos através daquilo que fizeram comigo, minha responsabilidade diminui. 

“Eu sou assim porque…” 

“Eu reajo assim porque…” 

“Eu não consigo porque…” 

E talvez, em algum momento, a explicação deixe de ser uma ferramenta de compreensão e passe a ser uma identidade. Aí está um problema! 

“Eu fui ferido” pode ser uma etapa da elaboração.  

“Eu sou aquilo que fizeram comigo” pode se tornar uma prisão. 

Vou dizer aquela frase clichê: 

O que fizeram comigo pode ser responsabilidade deles. O que eu decido fazer com isso e a partir disso é responsabilidade minha. 

(por que choras, Instagram?)

E quando você mente pro seu psicólogo?

Tem mais essa pérola. Às vezes a pessoa mente para si mesma e acaba mentindo na terapia. Conta uma história para amenizar a dor, o impacto, e passa a acreditar nela como verdade. Ou, às vezes, esconde a verdade porque: 

  • sente vergonha; 
  • tem medo do julgamento; 
  • está se protegendo; 
  • não confia completamente no terapeuta; 
  • ainda não consegue admitir alguma coisa nem para si mesma; 
  • não percebe que está omitindo. 

Então existe uma diferença entre mentir deliberadamente e não conseguir ser completamente honesto ainda. Às vezes, a pessoa não está tentando enganar o terapeuta. Está defendendo a narrativa que precisa acreditar para continuar funcionando.  Mas, em algum momento, se a pessoa conscientemente constrói uma versão conveniente de si mesma dentro da terapia, existe um problema: 

Como trabalhar aquilo que não está sendo apresentado? 

É como entregar ao terapeuta um mapa adulterado e depois reclamar que ele não encontrou o caminho. 

(essa foi boa, hein?)

“Eu quero mudar” não significa necessariamente “eu quero o processo de mudança” 

Porque quase todo mundo quer o resultado: 

  • quero parar de sofrer; 
  • quero ter autoestima; 
  • quero deixar de ser dependente; 
  • quero parar de repetir relacionamentos ruins; 
  • quero controlar minha ansiedade; 
  • quero me posicionar melhor. 

Mas o processo pode exigir coisas desagradáveis como admitir que eu também participo da manutenção do problema (dói pior que cebola no zói). E aí aparecem perguntas difíceis: 

O que eu ganho permanecendo assim? 

O que eu perderia se realmente mudasse? 

Quem eu seria sem esse padrão? 

Que responsabilidade minha eu ainda estou tentando entregar para outra pessoa? 

O que eu sei que preciso fazer, mas continuo não fazendo? 

Essa última é especialmente poderosa. 

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