Outro dia, almoçando com um amigo num botequim “copo sujo”, acompanhados de um litrão, começamos a fofocar sobre a vida de uma conhecida em comum (adoro!). Essa conhecida apesar de ser pregadora assídua da palavra freudiana aos quatro ventos, parecia não sair do lugar. Era como se carregasse padrões que parecem permanecer intactos. Foi aí que meu amigo me perguntou: Você acredita que psicoterapia realmente funciona?

Como alguém pode fazer psicoterapia durante anos e continuar repetindo os mesmos padrões?
Pensei com as vozes da minha cabeça que, talvez o problema não seja que a psicoterapia não funciona. Talvez seja que fazer psicoterapia e se transformar não sejam dois processos que obrigatoriamente se complementam. Já parou para pensar sobre isso?
Eu, particularmente, sou entusiasta do estudo do desenvolvimento humano e estou sempre pesquisando, me usando como ratinho de laboratório (tadinhos). E que venham terapias e terapias. Qualquer ferramenta que auxilie na busca pelo autoconhecimento eu louvo de pé. Faço o melhor que posso com minhas observações, meu ceticismo (sim!) e minha fé inabalável no Universo.
(toda controversa, ela)
Fazer psicoterapia não é a mesma coisa que fazer um processo terapêutico (eu acho)
Como assim, doida?
A psicoterapia pode proporcionar benefícios como:
- acolhimento;
- compreensão;
- elaboração;
- nomeação de sentimentos;
- identificação de padrões;
- construção de recursos;
- mudança de comportamento;
- transformação da relação consigo e com os outros.
Mas essas coisas não são automaticamente equivalentes. Uma não puxa necessariamente a outra. Não é porque eu bebo um litrão que eu sou alcoolista ou sommelier de cervejas. Entende? Uma pessoa pode sair de uma sessão de psicoterapia pensando:
“Agora eu entendo por que faço isso.”
E isso é importantíssimo, inclusive do ponto de vista geracional (constelação familiar que o diga!). Entender de onde vêm determinados padrões pode interromper dores que atravessam famílias inteiras. Mas existe uma pergunta seguinte:
“E agora que eu entendo de onde vem a dor, o que faço diferente?”
A armadilha da descoberta
Assisti um relato num shorts do YouTube outro dia, onde uma moça estava falando sobre autoconhecimento e contando a importância da psicoterapia para ela. Dizia que tinha muito preconceito (quem nunca?) mas que a terapia havia mudado completamente sua vida.
Veja bem: ela dizia que, com a psicóloga, descobriu a origem dos problemas que tinha ou teve, como decisões que a prejudicaram, padrões de relacionamentos românticos tóxicos, a relação com os pais, com amigos etc. Ela frisava que, em todas as sessões, chorava copiosamente, de soluçar a cada descoberta que fazia. Inclusive, enquanto relatava tudo isso, estava aos prantos. Tive a curiosidade de clicar para ver mais uma parte do vídeo porque a choradeira me intrigou.

Depois de mais choros, o relato termina com a sensação de que houve uma grande transformação. Mas, pela fala que se seguiu, coisas em torno de como se sentia aliviada, calma desde então, a meu ver talvez tenha acontecido outra coisa: Ela só encontrou a justificativa.
A origem da ferida explica o comportamento
Acredito que a explicação não é necessariamente transformação. Muitas pessoas se sentem muito confortáveis ao descobrir que seus fracassos têm uma origem. Achei o culpado, que as vezes pode ser até a própria pessoa.
“Não é possível que eu tenha sido tão idiota.”
Inclusive, eu mesma fiquei nessa por muito tempo (oh céus, descobri tudo!). Quando finalmente encontramos um “motivo”, um culpado por sermos quem somos e por agirmos como agimos, sentimos que chegamos a algum lugar. Agora é só continuar falando sobre isso com a psicóloga, como o motorista de Uber e com todo mundo que eu encontrar, que estarei redimida.
Só que descobrir: “Eu sou assim porque aconteceu X comigo”, não significa automaticamente conseguir superar e mudar o que vem daqui para frente.
A identidade de vítima pode ser muito confortável
Reconhecer que fomos feridos, que determinados comportamentos podem ser consequência do comportamento de outras pessoas, é necessário. Permanecer psicologicamente organizado em torno dessa ferida pode ser outra coisa. Porque existe um ganho secundário possível. Quando consigo explicar todos os meus comportamentos através daquilo que fizeram comigo, minha responsabilidade diminui.
“Eu sou assim porque…”
“Reajo assim porque…”
“Eu não consigo porque…”
E talvez, em algum momento, a explicação deixe de ser uma ferramenta de compreensão e passe a ser uma identidade. Aí está um problema!
“Eu fui ferido” pode ser uma etapa da elaboração.
“Eu sou aquilo que fizeram comigo” pode se tornar uma prisão.
Vou dizer aquela frase clichê:
O que fizeram comigo pode ser responsabilidade deles. O que eu decido fazer com isso e a partir disso é responsabilidade minha.
(Por que choras, Instagram?)

E quando o paciente mente?
Tem mais essa pérola. Às vezes a pessoa mente para si mesma e acaba mentindo na terapia. Conta uma história para amenizar a dor, o impacto, e passa a acreditar nela como verdade. Ou, às vezes, esconde a verdade porque:
- sente vergonha;
- tem medo do julgamento;
- está se protegendo;
- não confia completamente no terapeuta;
- ainda não consegue admitir alguma coisa nem para si mesma;
- não percebe que está omitindo.
Então existe uma diferença entre mentir deliberadamente e não conseguir ser completamente honesto ainda. Às vezes, a pessoa não está tentando enganar o terapeuta. Está defendendo a narrativa que precisa acreditar para continuar funcionando. Mas, em algum momento, se a pessoa conscientemente constrói uma versão conveniente de si mesma dentro da terapia, existe um problema:
Como trabalhar aquilo que não está sendo apresentado?
É como entregar ao terapeuta um mapa adulterado e depois reclamar que ele não encontrou o caminho.
(Essa foi boa, hein?)
“Eu quero mudar” não significa necessariamente “eu quero o processo de mudança”
Porque quase todo mundo quer o resultado:
- quero parar de sofrer;
- quero ter autoestima;
- quero deixar de ser dependente;
- quero parar de repetir relacionamentos ruins;
- quero controlar minha ansiedade;
- quero me posicionar melhor.
Mas o processo pode exigir coisas desagradáveis como admitir que eu também participo da manutenção do problema (dói pior que cebola no zói). E aí aparecem perguntas difíceis:
O que eu ganho permanecendo assim?
O que eu perderia se realmente mudasse?
Quem eu seria sem esse padrão?
Que responsabilidade minha eu ainda estou tentando entregar para outra pessoa?
O que eu sei que preciso fazer, mas continuo não fazendo?
Essa última é especialmente poderosa.
Eu entendo que não é uma atitude fácil olhar para as próprias dores e é aí que me lembro da carta de tarô A Torre: para reconstruir alguma coisa, o velho precisa cair. E deixar cair o velho dói que é uma beleza.
(tive que meter o tarô nessa, é mais forte que eu)

A psicoterapia como lugar de validação
Mas vem cá: chorar na psicoterapia não é problema. Às vezes, chorar é justamente o corpo fazendo o que não conseguiu fazer durante anos (haja ranho!).
O problema seria transformar intensidade emocional em métrica de transformação. Uma sessão devastadora não é necessariamente uma sessão produtiva. É possível sair de uma sessão emocionalmente exausto e, ainda assim, continuar exatamente no mesmo lugar. E o contrário também acontece. Às vezes, uma sessão aparentemente simples, na qual alguém percebe uma responsabilidade que vinha evitando há anos, pode produzir uma mudança muito maior. Então: lágrimas, aceitação, insight, autoconhecimento, transformação.
São ingredientes possíveis e também não são o prato pronto. O importante aqui é ser o mais sincero que conseguir: consigo e com o terapeuta.
Vai, deixa o profissional trabalhar! Existe um pote de ouro no final do arco-íris.

O terapeuta também entra nessa equação
Claro que a história não depende apenas do paciente. Existem questões como:
- abordagem terapêutica;
- qualidade da formação;
- vínculo terapeuta-paciente;
- objetivos do tratamento;
- frequência;
- avaliação do progresso;
- capacidade do profissional de confrontar quando necessário;
- capacidade do paciente de receber esse confronto;
- adequação daquela abordagem àquela pessoa.
E uma questão importantíssima:
Um bom terapeuta não deveria simplesmente dizer ao paciente aquilo que ele quer ouvir. Mas também não deveria transformar psicoterapia em tribunal. O trabalho é muito mais delicado: acolher sem infantilizar; confrontar sem humilhar; compreender sem justificar tudo.
Isso rende uma seção linda, especialmente quando comparada aos relatos no TikTok sobre aquelas sessões terapêuticas quase fantasmagóricas.
E quando a psicoterapia está funcionando, mas não do jeito que imaginamos?
Uma pessoa pode estar em terapia e evitar uma recaída, conseguir reconhecer emoções, estabelecer um limite que antes não conseguia, sair de uma relação abusiva, aprender a pedir ajuda, compreender seus gatilhos enquanto desenvolve recursos para atravessar uma crise e por aí vai. Sim, é possível. Esse é o mote!
Talvez ela ainda chore.
Ainda tenha sintomas.
Talvez ainda repita algumas coisas.
Mudança não significa virar outra pessoa.
E uma doença ou transtorno psicológico também não é prova de fracasso terapêutico.
Isso é especialmente importante; desenvolver sintomas ou continuar sofrendo não permite, sozinho, concluir que a psicoterapia “não funcionou”. Somos seres subjetivos também, né?
Por isso existem diferentes abordagens terapêuticas e posso te afirmar com todas as forças do meu coração:
Nenhuma faz milagre. Não existe varinha de condão!
Aí entra a coisa das sombras e tal, mas deixa para a próxima, porque essa é bem boa também (dói que é uma beleza!).

E então: o que seria uma psicoterapia que funciona?
Esse é o pulo do SEU gato. Não é necessariamente: Eu nunca mais vou sofrer.
Mas talvez: Eu começo a me relacionar de outra maneira com aquilo que me faz sofrer.
Uma psicoterapia que funciona poderia produzir, progressivamente que:
consciência → responsabilidade → escolha → comportamento → repetição → mudança.
Não necessariamente nessa ordem perfeita. Mas existe uma passagem fundamental:
Eu entendo por que faço isso.
para:
Eu consigo fazer diferente.
E depois:
Eu faço diferente mesmo quando é difícil.
A mudança aparece na vida, não apenas na narrativa que construímos sobre ela.

O contraponto: de volta ao litrão
Meu amigo solta, mais uma mesmo depois de todo meu rosário desfiado:
Terapia é perda de tempo, então.
Eu meio fula já, joguei de uma pergunta também:
Então o que faremos? Esperamos a morte?
Ele, por sua vez, me desfiou o rosário dele que não está totalmente errado, pois vida é feita de escolhas. E nem todo mundo está preparado para o caminho mais doloroso. Ele me disse que não fazer terapia não significa não ter um método para lidar com o sofrimento. Logo, algumas pessoas usam:
- álcool;
- drogas;
- trabalho;
- sexo;
- religião;
- espiritualidade;
- relacionamentos;
- comida;
- isolamento;
- racionalização;
- humor.
E é isso mesmo. Todo mundo encontra alguma maneira de regular a própria experiência. A questão então não é: Você faz terapia?
Talvez seja: O modo como você lida consigo mesmo está funcionando?
Pronto! Estamos nós três no mesmo campo: A conhecida em comum, meu amigo e eu.
Afinal, talvez a pergunta esteja errada
Talvez a pergunta não seja: “Será que psicoterapia realmente funciona?”
Mas: “Para quem, em quais condições, com qual terapeuta, com qual abordagem e com que disposição para participar do processo a psicoterapia funciona?”
Porque psicoterapia não é uma pílula que alguém toma enquanto permanece exatamente igual. E talvez a pergunta mais incômoda seja:
“Estou procurando ajuda para mudar ou estou procurando um lugar onde minha versão atual possa ser compreendida e validada?”
Talvez existam pessoas que passaram dez anos em psicoterapia sem mudar muito e…
Talvez existam pessoas que mudaram profundamente justamente por terem feito psicoterapia.
E talvez existam pessoas que fizeram terapia, descobriram a origem de todas as suas dores, aprenderam a explicar perfeitamente seus padrões, mas mesmo assim continuaram repetindo todos eles.
A diferença talvez não esteja apenas em descobrir o que aconteceu conosco. Está no que fazemos depois de descobrir. Te deixo (e fico, sempre) com uma reflexão:
“Eu estou me conhecendo para me transformar ou estou me conhecendo para construir uma explicação cada vez mais sofisticada para continuar sendo exatamente quem sou?”

A partir daqui temos muito pano pra manga. Vamos juntas!
Referências de leitura:
- Artigos científicos sobre eficácia da psicoterapia (PubMed, Scielo)
- Livros clássicos como A Interpretação dos Sonhos (Freud) ou O Poder do Agora (Eckhart Tolle)